Alguns dias atrás entrei em contato com tia Helena por e-mail e lhe dei a notícia de que Mananda não havia resistido a uma cirurgia para retirada de um tumor. Mencionei o quanto fiquei triste, afinal de contas Mananda esteve comigo por longos tempos além de fazer parte tambem da vida de tio Fernando, tia Célia, tia Helena, tio Geraldo, Lucas, Paulinha, Biel, Guga e por ai vai na família Faria ..
Hoje, ao abrir minha caixa de e-mail me deparei com uma agradável surpresa que achei necessário compartilhar com vocês. Segue abaixo o texto que Lucas escreveu quando soube da notícia de Mananda.
ps: Luquinhas, antes de mais nada parabéns pela escrita, é contagiante. Muito obrigada pela homenagem, de verdade. Vc não sabe o quanto isso significa pra mim!
Hoje, chegando em casa, vi um velho cachorro passear na rua. Saía com sua dona, tarde, às 11h da noite, do barzinho onde até tantas outras horas a mulher madruga, ladeada do cão, que fecha as portas do bar como um cliente animal, que na verdade é o companheiro de sempre da patroa. E esse pastor alemão velho me chamou atenção, eu que nunca tinha olhado com mais cuidado. Ele podia ser a versão canina do velho do mar de Hemingway. Estava ali, velho e companheiro, arrastando a idade pela rua de noite. A dona seguia, como de hábito, para deixá-lo fora um instante, apenas o suficiente para respirar ar novo, fazer xixi, e lembrar que é cão, que marca território e ri dos postes. Mas esse pastor alemão - eu pude ver - é muito idoso. A idade marca os seus gestos feitos, e principalmente os não feitos. O pêlo já abundava em cinza. Só não abundava mais porque caíra antes. E o passo manco... parecia uma ameaça de cambalhota em cada patada nova. Como ele andou meio sem sentido entre o muro e eu, perguntei-me se não era também cego, se a visão já tinha ido antes dos olhos. Acho que sim. Ou quase. Mas fiquei admirado. O cãozinho, que em outros dias deve ter sido um macho aventureiro, estava ali, sobrevivendo pelo dever canino de acompanhar sua dona na tarefa sagrada de fechar o bar da esquina. É curioso como os animais repetem suas rotinas. Não há compromissos ou desejos que pudesse lhe deseducar no empenho com que iria fazer o mesmo passeio noturno até o fim das suas forças, e dos seus dias - e noites. Sentia-se isso. E ali passava eu, admirado com a condição penosa do bicho, que quase falava "Sou velho.", mas existia mesmo assim. Ainda. Sempre. E não puder impedir de pensar num outro amigo canino. Esta, na verdade, uma cadelinha. Ela também, cãotadinha, velha de manhã, e velhinha de tarde. Cega, sim; pesada, sim. Qual será o peso dos anos? 21 gramas? 10 quilos? O cão não vive mais do que quinze anos. Para ele, aí está toda a eternidade dada. Mas ele não se preocupa. Não é humano, é bicho. Não angustia, só vive. Nunca um deles me perguntou o que ia fazer amanhã, apenas ocupou-se em estar hoje., sem mais e maises Um cachorro, se visse o que eu escrevo, comia, e fazia muito bem. Mas a sina desse bicho é andar com gente - vai entender porquê, entre tantos bichos de Deus - e aí se angustia, se preocupa, se escreve. A cadelinha em quem inevitavelmente pensei era Mananda. No ato, lembrei-me dela. Fiquei ali pensando em como estava essa outra velhinha, essa anciã danada. Lembro de quando a vi ainda brotinha, ainda aprendendo a falar a língua de cão. Dei comida para Mananda quando nem latir ela sabia. Faz tempo, parece. Minha memória pode me dar rasteiras, mas acho que foi ali por volta de 1997, 1998, salvo erro. Até que ela figurasse fumando e bebendo nas fotos com Gustavo passou muito carrapato. Fiquei com medo, na época, de passá-la para Juliana. Desculpas à minha prima querida mas até então tinha a sensação de que nenhum bicho durava muito tempo na casa do Calhau, por motivos diversos. Mas veja bem, me enganei feio - que bom! Contrariamente às fotos dos parentes desocupados, Mananda recebeu os maiores cuidados e viveu bem - e bastante. Viveu tudo o que podia. Catorze anos não é brincadeira para sua raça. Já imaginou se vivêssemos o máximo do humanamente possível? Não há do que se queixar. Mas é verdade que me lembrei dela. E tem só algumas horas, quando entrava em casa... É engraçado quando sei que nunca penso nela. Ao menos, não é normal na minha rotina. E me dizia: "Gente, brincando, brincando, Mananda também está desse jeito, velhinha, mas enganando todo mundo, resistindo sempre, me pregando uma baita surpresa todo fim de ano quando abro a porta de tio Neca e vejo Mananda se levando casa afora." É... "Até quando será que ela vai aguentar? Até onde vai levar? Será que ainda vou vê-la uma vez mais em dezembro? Ela é forte, essa cadelinha..." E mal tem um par de horas que me punha essas questões.
Quando criança, havia um filme que eu adorava. Chamava-se "Todos os Cães Merecem o Céu". Que filme bonito, que talento para contar uma história singela sobre a vida para as crianças. Sempre me chamou a atenção como os pequenos gostavam de ver e rever as mesmas cosias vezes sem conta. Os mesmos filmes, os mesmos desenhos, os mesmos gibis, as mesmas histórias para dormir, as mesmas piadas, os mesmos contos. Será que querem ter a certeza de que o mundo é confiável e não vai lhes enganar, mudando tudo de lugar? Que podem nele confiar, sabendo que não vai subitamente se modificar? Nunca saberei, pois só podia responder há 20 anos atrás. Mas como eu vi esse filme, e tão repetidas vezes. Nem ouso rever, pois sei que não entenderia mais nada que tão preciosamente compreendi quando criança. Mas a mensagem do filme permanece cristalina: todos nós vamos para o céu. Gente, bicho, adulto, criança, bons, maus, confusos... todos. Lembro que quando seu Didi (avô de Marco Túlio) morreu, escrevi que ele ia finalmente poder rever Rosa, a papagaia que lhe fez companhia durante tantos anos. No mesmo texto lembrei do seu filho, Sérgio, que morreu antes dele, e que era surfista e jogador de bilhar profissional no circuito internacional do Olho d'Água. Aí escrevi isso: "Se eu pudesse fazer uma aposta agora, diria que Rosa é o “membro” da família mais alegre no momento pois ganhou de novo a companhia do Sérgio e de seu Didi lá no céu, onde com certeza tem papagaio, surfe, bilhar, e gente boa do calibre de seu Didi." Não minto. A morte traz, às vezes, muita tristeza para quem fica, mas quase sempre - ou sempre - traz dignidade para quem vai. E apesar de me admirar com Mananda, que entra ano, sai ano, levava a velhice de tiracolo, brincando cega no jardim enquanto surpreendia muita gente, sei que agora ela está sossegada, num jardim que, vejam só, só nós é que não podemos ver.
Obrigado tio Fernando, Mamãe, Paula e Juliana, as principais responsáveis pelo surgimento de Mananda na nossa varanda, e a todos que cuidaram dela. Sempre foi uma cachorrinha muito engraçada e simpática, e agora o bronze do seu pêlo reencontrou a leveza que outrora lhes dourava. Um beijo
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11 comentários:
Sem palavras,sem comentários,pois não há o que comentar sobre obra prima.Um primor de texto,parabéns Lucas e obrigada por vc existir em nossa vidas e ainda fazer parte para sempre da familia. E aproveito pra agradecer tb a existência de Mananda que não foi apenas um animal de uma pessoa, mas de uma família toda.
Minha linda Juli,
Chore de contentamento pelo bem que vc soube oferecer - e o soube pq esse bem vc o tem em si ,e Mananda o sentiu fortemente - ao seu (nosso) bichinho de estimação.
Penso que Lucas traduziu tão lindamente os nossos sentimentos,obrigada, querido, pelas suas palavras tocantes que dão beleza à saudade e nos comovem..
Bjo amoroso, Juli e Lucas.
Boa Lucas!!!!
Voltando a Mananda; uma cadelinha de sentimentos humanos. Fica a boa memoria de milhares de passagens. Isso que devemos fazer. Uma que vem a cabeça é aquele dia que, ela fedendo muito, decidi tosar "zero" sem avisar para Juli! hahahahah Mananda passou uns 2 dias no quarto com vergonha. Nao seria humano isso?
Juli,acredito que vc é a principal responsável por Mananda ter vivido todos esses anos, afinal, ela te esperou esse tempo todo que estavas fora, para só descansar depois que desfrutasse da tua adorada companhia! Saudades deixará p/ sempre, mas suas adoráveis lembranças estarão sempre no seu, nos nossos corações.
Lucas, meu amado e brilhante afilhado filósofo, todos os aplausos do mundo são poucos p/ você. INSUPERÁVEL é a sua palavra.
Beijos,
Tia Teca
Uma criatura cujo nome é a fusão de Manuella e Fernanda e que morou em 3 casas (Fernando, Helena, Neca) não poderia ser mais Faria, não é?
É isso aí, Guga. Depois de morrer a gente (gente e bicho) só vive se lembrado pelos outros, por isso o que conta é sorrir dos momentos vivenciados. Realmente, tem uns bichos que parecem entrar em uma tal simbiose com o ambiente humano ao seu redor que seu comportamento fica curioso, parece humano mesmo. Mananda tinha essas tiradas, como você lembrou. Lembro de ti apurrinhando ela, esfregando o fucinho dela e depois jogando-a na piscina. A gente pensava que ela ia se irritar mas ela curtia horrores. Será que vai ter saudades desses ataques surpresas?
A vergonha é um sentimento muito humano, e, no entanto, Mananda parecia manifestar de vez em quando, como vc recorda. Uma das muitas marcas cômicas dela.
Tia Teca, você também foi muito feliz na constatação, que está corretíssima. Se tem uma coisa que afasta a hora do adeus é a espera. Não importa qual, cada um com a sua. A de Mananda era ver uma vez mais a dona. No fim, está tudo sempre consumado. Morreu feliz. Há algo melhor?
A todos, muito obrigado. Não escrevi com a pretensão de publciar no blog, fiquei surpreso quando soube que Júli o fez. Escrevi originalmente para minha mãe, sem maiores pretensões, sempre rabisco o que passa na cabeça, e me prolongo nisso, mas não me importo que as pessoas partilhem se quiserem. Se pôde render uma bonita homenagem a um bichinho que nos deu tantos momentos de diversão e risadas, então até melhor, que bom. Obrigado pelas palavras exageradas e carinhosas. Adoro essas duas qualidades da minha família, nessa ordem. Um beijo afetuoso em todos. Um especial para Júli. No woman no cry. Beijos e até logo
Julinha,
posso imaginar o vazio no teu "coraçaozinho grande", mas olha quanto amor vc deu à Mananda e quanto amada por toda familia ela foi... tem sentimento melhor do que todo esse amor p ela ter levado consigo ?!? Acho que nao... De qq forma, palavras se tornam pequenas depois de uma leitura linda e comovente feita por Lucas. Parabéns Luquinha, sinto orgulho !!!
Depois de ler esse texto, pensei na postagem que acabei de ler no facebook de David falando do sobrinho dele, minha madrinha vai infartar de tanto erro ortografico e do assassinato à lingua portuguesa hahahahaha (tadinho do meu suiço-alemao !!!)
Beijos a todos.
Juli querida,
obrigado por compartilhar seus sentimentos conosco, e que gerou um belo texto e tantas manifestações de carinho. Parabéns Lucas pelo seu texto, profundo e simples, e que nos faz pensar sobre muita coisa.
Isso me faz pensar e confirmar o que é realmente importante.
Importante são os sentimentos e quem nele estão envolvidos.
Importante é a família.
Importante é transformar a passagem de Mananda num momento de comunhão de sentimentos e recordações familiares. Poderíamos todos estar sentados agora na área de convívio da casa de vcs no Calhau, mas estamos agora unidos através de milhares de quilómetros e um oceano entre alguns, pela magia da tecnologia que nos torna próximos. Que nunca nos esqueçamos que somos mais do que um indivíduo, somos partes de uma família, que se torna nosso corpo para além do nosso.
Com diferenças que devem nos enriquecer, pois um bom prato nunca é feito apenas com um elemento. Para ser saboroso algo tem que ser acrescentado, mesmo que em doses mínimas.
E a mistura equilibrada de vários elementos é que tornam o sabor agradável.
Que saibamos usufruir desta riqueza que são nossas famílias.
Um abraço a todos
Juli querida,
Lembro ainda em uma das muitas férias que passamos juntas de o quanto você estava feliz em ter recebido Mananda em sua casa! Posso até ouvir sua voz: Manaaaaaaaaanda! Tenho certeza que era a música preferida dela! Para mim soava um casamento perfeito de som e letras.
Imagino o quanto ela deve ter ficado feliz em ter você por perto na hora em que precisava, e como bem disse tia Teca, parece mesmo que ela estava te esperando. Como se após sua volta a São Luis ela pudesse partir sabendo que sua dona estava no lugar onde deveria estar.
Lucas, lindo texto e obrigada por fazer o dia da nossa Juli menos triste.
Um beijo grande a todos vocês,
Ana Carolina
Juli, fiquei muito tristinha também quando soube de Mananda... Mas todos nós a vimos crescer e sabemos que ela fez parte da convivência e de boas memórias.. com certeza guardaremos os bons momentos com cuidado e carinho nas lembranças. Luquinhas fez uma bela homenagem, e vc um belo papel na vida dela. Que descanse em paz a nossa cachorrinha...
Beijos
Eu queria agradecer de coração todas as manifestações de vcs. Acho que como tio Geraldo e tia Helena falaram o importante foi transformar td isso em um momento de confraternização aqui no blog. Acho que isso é oq faz a diferença no final das contas.
Um beijo carinhoso em todos e mais uma vez parabéns ao nosso poeta Lucas pela texto.
Juli
Eu queria agradecer de coração todas as manifestações de vcs. Acho que como tio Geraldo e tia Helena falaram o importante foi transformar td isso em um momento de confraternização aqui no blog. Acho que isso é oq faz a diferença no final das contas.
Um beijo carinhoso em todos e mais uma vez parabéns ao nosso poeta Lucas pela texto.
Juli
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